Gastronomia no Rio legado olímpico? ~ Forno, Fogão e Cia Consultoria Gastronômica Chiarini Culinary Consultants Brasil

16/08/2016

Gastronomia no Rio legado olímpico?

Ouvimos nos noticiários diariamente sobre o “legado olímpico”, algo que deveria ser natural para quem sedia um evento com esta importância, ainda parece não ter se firmado ao menos como deveria.

Fala-se muito de transportes públicos, mobilidade, melhorias que os governos municipal e estadual irão deixar pela cidade toda, construções como a vila olímpica com seus prédios de apartamentos que não estavam prontos no início dos jogos e que assistimos pela TV a espetáculos dantescos de início de incêndios e disparos “acidentais” de alarmes, entre outras “cositas mas.”

Para a nossa área, gastronomia não será tão diferente, a Subvisa Rio, órgão público municipal responsável pela fiscalização dos estabelecimentos de alimentação fora do lar, juntamente com outros dois órgãos: ANVISA e Visa Estadual, estabeleceram uma rígida cartilha de “responsabilidades sustentáveis” que deveriam ser assumidas pelos donos de restaurantes, fornecedores de alimentos e bebidas entre outros, para se manter dentro do mínimo da lei e que, no entanto, sabemos que não se revela verdade prática.

A gastronomia do Rio ainda continua com falhas graves e, poucos são os restaurantes realmente preparados para receber e oferecer qualidade em matéria de comida boa, no entanto, há uma “luz no fim do túnel” que se não for apagada logo após o fim dos jogos, poderá servir como um dos bons exemplos a ser seguido.

O Chef Massimo Bottura em uma iniciativa inédita com uma ONG brasileira abriu um restaurante social chamado Refettorio Gastromotivo, ele e David Hertz fundador da ONG Gastromotiva, idealizaram o projeto e o colocaram para funcionar na região central da cidade, segundo David e Massimo, o restaurante servirá 108 refeições diárias à população vulnerável e após os jogos, seguirá aberto ao público com o conceito “pague o almoço e deixe o jantar” sem que tenham sido definidos os preços a serem cobrados.

Os fins não justificam os meios.
A boa oportunidade quase perdida para um evento como os jogos é para alguns a forma de se ganhar muito dinheiro em pouco tempo, aliás, lugar comum em muitos dos eventos produzidos e patrocinados por empresas e governos brasileiros, uma coisa que podemos chamar de “brecha” que sempre acontece, infelizmente.

Outros tantos restaurantes foram abertos apenas para servir durante os jogos, em um deles que se encontra instalado dentro do parque olímpico essa “brecha” fica evidente. Idealizado para servir a mídia, as refeições servidas no sistema self service estão à disposição pelo módico preço de R$ 98,00 (Noventa e Oito Reais) o quilo, algo impensável para um país onde boa parte da população mal consegue comprar os alimentos contidos na lista da cesta básica de uma vez só. Não bastasse o fator “preço” para fazer uma “segregação” de quem pode ou não frequentar o tal restaurante, servir comida a esse preço mereceria ao menos um serviço melhor como o A La Carte, afinal, “bandejão” costuma ter preços mais baixos.

Outra boa iniciativa que já sabemos não terá continuidade após os jogos, são as casas temáticas espalhadas pela cidade inteira, uma proposta interessante que traz cultura, integração, oportunidade de desenvolvimento e boas relações entre os povos do mundo, o ideal pensado pelo Barão de Coubertin para integrar pessoas através das olimpíadas.
Nessas casas temáticas estão sendo servidos refeições e lanches típicos desses países, fazendo um verdadeiro “Tour gastronômico” sem sair do Brasil. Pena que isso não vai continuar, pois, seria uma excelente fonte para atrair pessoas do país inteiro e do mundo, além de ser fonte de emprego e renda para os brasileiros.

O “Rio” corre para o mar.
O ditado popular é mais uma das lições que se aprende durante eventos como os jogos olímpicos, patrocinadores endinheirados tem sua participação mais do que garantida na parte gastronômica, não que isso seja ruim, ao contrario é bom sim, mas, esses mesmos patrocinadores deixarão legados ou será apenas uma forma passageira de ganhar mais dinheiro? Os seus restaurantes itinerantes montados para trabalhar nos locais escolhidos como pontos turísticos terão continuidade ou simplesmente vão sumir após os jogos? Essas e outras perguntas deverão ser respondidas ao longo do tempo por estas empresas que se comprometeram e assinaram o documento de compromisso intitulado “O Sabor dos Jogos Rio 2016”.

Legado olímpico? Será?
Talvez tenhamos que aprender um pouco mais sobre esse assunto observando o passado e vendo o que foi realmente feito para aproveitar instalações ultra caras que hoje beneficiam a população local, claro que a história de algumas das cidades que sediaram eventos olímpicos não são um exemplo desse aproveitamento, mas, a mais recente delas, Londres, conseguiu e tem seguido um bom plano de continuidade e desenvolvimento. Por lá as instalações continuaram funcionando e desenvolveram a economia, criando novos bairros, mobilidade, negócios gastronômicos que por mais simples que sejam, ajudam a manter o tal legado.

Por aqui, ao que parece veremos os mesmos acontecimentos do pós-copa ou do pós-jogos pan-americanos, tudo sendo desmontado com uma pressa enorme para dar espaço a exploração imobiliária ou para empresas com dinheiro o bastante para “tocar” seus negócios.

Ainda dá tempo para ser e fazer diferente!
No próximo domingo dia 21 serão encerrados os jogos olímpicos e com isso, boa parte da infraestrutura montada para receber atletas e turistas será simplesmente desmontada, mesmo com a continuidade dos jogos paralímpicos que terão seu início no dia 07 de Setembro, a pouca ou quase nenhuma atratividade será o bastante para manter tal estrutura funcionando a plenos pulmões?

As mesmas empresas e órgãos governamentais poderiam fazer esforços para dar essa continuidade, não só para os jogos paralímpicos, mas, para o desenvolvimento da cidade que precisa se manter viva sem ter que contar com história apenas, como foi no passado. Essa contribuição seria muito interessante não só para o Rio como para o restante do país que passa por momentos críticos e que necessita ser visto com outros olhos pelo resto do mundo.

Uma boa iniciativa seria colocar em pratica os investimentos feitos provisoriamente, só que de forma definitiva, gerando empregos, cultura, sustentabilidade de verdade e boa comida, afinal,  o Brasil tem potencial e merece.